Devolutiva de Alfredo Barros sobre o encontro da EDT 2017 – Sexta

Por Alfredo Barros*

Cheguei cedo. Havia pouca gente no pequeno saguão da Cinemateca do MAM, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A equipe da produção da EDT, a Associação de Montadores de cinema do Rio, andava apressada por ali. Cuidando dos últimos detalhes para o encontro que eu esperava ansioso para participar pela primeira vez. Foram mil quinhentos e setenta quilômetros de viagem de avião e mais alguns de Uber para chegar ali. Era a primeira vez que montadores se encontravam no Rio. O encontro de São Paulo havia acontecido há pouco. Estive lá também e pude ver e ouvir alguns ídolos bem de pertinho. Personagens que citei mil vezes diante de cenas projetadas em minhas aulas de montagem na ESPM Sul, destrinchando corte a corte sequências inteiras na esperança de descortinar aquela magia invisível que tanto me encanta. Mestres como Umberto Martins, Idê Lacreta, Luiz Elias, Regina Dias, Carlos Álvaro Vera, Celso José dos Santos, Paulo Mattos Souza, Vania Debs, Daniel Rezende, Gustavo Giani e Márcio Hashimoto estiveram lá naquela tarde de sábado, no dia 23 de setembro.

Mas esse encontro do Rio seria muito maior. Teríamos duas tardes e meia de homenagens, aulas magnas (ou master classes) e debates divididos em temas de grande interesse da classe, como: softwares de edição, realidade virtual, preservação, quantidade e relevância do material bruto e a formação e parceria dos assistentes com os montadores. Mais uma vez, poderia viver aquela emoção de ver de perto mestres da montagem. Vicente Kubrusly (Dois Filhos de Francisco, Magnífica 70) e Eduardo Escorel (Terra em Transe) estavam confirmados para as Master Classes. Como se esse festival de maravilhas já não bastasse, teríamos já na arrancada uma homenagem com direito a degustação da obra do “Fofinho” Joao Paulo de Carvalho, o montador que dividiu as águas da televisão brasileira, o cara que depois de montar novelas e séries memoráveis como Irmãos Coragem, Selva de Pedra, Dancing Days, Malu Mulher e Plantão de Polícia, reinventou o ritmo da TV com Armação Ilimitada, América e o documentário Blues, que ainda hoje nos fazem babar de encantamento. Após a exibição do primeiro episódio frenético de Armação, num ritmo Vertoviano de dar inveja à MTV, mergulhamos em Blues, dirigido por João Moreira Salles e que conta com imagens em super 8 captadas pelo próprio montador, a antítese da pancadaria ilimitada da série de Guel Arraes. O cara era o próprio Chronos. Na primeira noite, após a exibição inicial, um debate com a presença dos amigos, diretores aprendizes do João Paulo fizeram um divertido debate-homenagem, bem no espírito moleque desse monstro da montagem que nos deixou em julho desse ano, sem claquete nem bip de fim.
Estavam na mesa Ademir Ferreira, Karen Harley, Guel Arraes, João Moreira Salles e Natara Ney. Ouvir aqueles diretores e montadoras contando histórias em primeira pessoa sobre episódios com outro cara genial que fazia a mesma coisa que eu faço, foi como um banho quente no inverno gaúcho na época em que isso ainda existia. Muito prazeroso. As frases e sacadas do João Paulo só confirmam o seu domínio de timing. Como aquela que ele disse para um operador de ilha muito austero e compenetrado: “Gatinho, fica ligado que o ponto exato do corte é quando eu agarrar o teu pau.” Ainda bem que não precisamos mais de operador de ilha… Viva o computador!

Pra encerrar a noite, como estamos no Rio, a festa “O Bin do Amor” deve ter sido ótima. Levou o Oscar de melhor nome de festa. Não pude ficar, pois sou tímido e não sei dançar. Amanhã eu conto sobre o dia 28 e a mesa sobre os softwares, a realidade virtual e a aula do mestre Vicente Kubrusly.

Rio de Janeiro, 27/10/2017.

*Alfredo Barros é editor e montador de cinema, atua no Rio Grande do Sul. 

A edt. é a primeira associação de profissionais de edição audiovisual do Brasil. Formada por editores, montadores, assistentes de edição, atuantes no Rio de Janeiro, e estudantes da área do audiovisual, foi fundada em março de 2012, e atualmente conta com quase 200 associados em seu quadro social.

Agradecemos o empenho do editor e montador Alfredo Barros por compartilhar o seu relato neste boletim. Vida longa a articulação dos trabalhadores e trabalhadoras do audiovisual. O presente texto foi revisado por Vinicius Carvalho, dúvidas e críticas podem ser enviadas para o e-mail: boletim@cinema.wiki.br.

Frederico Neto
Coordenador Geral - cinema.wiki.br Difusor Cultural na Sangue TV | 55(41)99132-5995

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