Devolutiva de Alfredo Barros sobre o encontro da EDT 2017 – Sábado

No sábado, cheguei atrasado para a mesa sobre softwares e perdi a fala sobre o Avid. Cheguei ainda em tempo de assistir a fala do Luís Bechtold sobre o Adobe Premiere. Particularmente, não gostei do tom da palestra dele. Me pareceu um pouco descolado do espírito do evento. Um vendedor entre montadores. Mas o Premiere estava deslumbrante como só ele consegue ser em vídeos de apresentação de vendas. É um software poderoso, sem dúvida. O que não curto muito é esse tom profético da Adobe, que aposta numa tendência de montador faz tudo, ou seja, um cara que faça na ilha a mesma diversidade de competências que encontramos entre as ferramentas do pacote Creative Cloud. Devemos ter a máquina mais poderosa possível para receber material em 6k, editar sem converter imagem e som, fazer os motion graphics e VFX, animações, trilhas, escolher as fontes dos créditos de abertura e roll final, mixar, exportar… Enfim, para que precisamos de uma equipe para pós-produzir filmes? Em breve faremos também roteiro, direção e o elenco com o Caracter Generator, que graças a Deus ainda está na versão beta.

– É a tendência.

– Ah tá.

– Edição offline é coisa do passado.

– Tá bom.

A palestra sobre o Final Cut X me agradou bem mais. Montador e professor do Iatec, Marcelo Ferraz também gerencia o site Falando de Final Cut. Ele fez uma retrospectiva do desastre de lançamento do software em 2011 e as melhorias que foram implementadas desde então. Um dado interessante, e que contraria a imagem de terra arrasada que os montadores profetizaram naquela época diante da chegada do X, é que a nova versão já superou a versão antiga em quantidade de usuários pagos. Em 2009, o 7 contava com 1,4 milhões de unidades vendidas em aproximadamente 10 anos de existência. Em 2017, com pouco mais de cinco anos de vida, o X já conta com mais de 2 milhões de unidades vendidas. Ao mesmo tempo, sua participação no mercado profissional de edição caiu de 50% em 2009 para 20% em 2014.

Isso se deve em parte a falta de interesse da Apple nesse mercado? Se contabilizarmos a quantidade de melhorias implementadas desde o lançamento do X em recursos pouco úteis para amadores, essa dúvida se evapora. O que achei mais interessante na palestra sobre o X foi uma demonstração em vídeo dessa quebra de paradigmas que o software propõe. O vídeo mostra um editor de publicidade que precisa reduzir um comercial de 60 segundos da Audi, montado no X, para uma versão de 30. Coisa freqüente na vida de montadores de publicidade. O cara consegue fazer uma nova versão em pouco mais de um minuto de trabalho graças a essa possibilidade de editar em uma nova lógica de sincronismo vertical e sem pistas e ao timeline magnético. Foi muito impressionante.

Depois, tivemos uma exposição super bem humorada do Cristiano Moura, professor da Proclass, que já havia falado sobre o Avid antes de eu chegar, e que também falou sobre o Da Vinci. Não vou entrar em detalhes técnicos aqui, mas acho que o Da Vinci (Blackmagic) vai tomar conta do mundo. O software é incrível. Tem tudo do bom e do melhor, junta o que tem de mais legal em cada software e ainda oferece uma plataforma profissional para os profissionais de edição de som e para os profissionais de color grading. Ao contrário da Adobe, a Blackmagic oferece uma mesma plataforma para uma equipe de profissionais ao invés de apostar na “tendência” do editor faz-tudo. A novidade mais legal que o Cristiano mencionou na palestra foi o recurso “Compare Timelines”, que nos permite comparar versões de corte com indicações das alterações, quase como aquele recurso de mapeamento de alterações do Word. Muito bacana.

Depois da mesa geek, tivemos a Master Class de Vicente Kubrusly, montador de Redentor e Dois Filhos de Francisco, entre uma lista de filmaços. Vicente falou sobre o início da sua carreira de forma super divertida, sobre a sua paixão pela tecnologia da ilha de edição, seu sonho de pilotar a Enterprise (me identifiquei muito com isso), as lições que aprendeu com João Paulo, homenageado do encontro, mostrou cenas da série Magnífica 70, trouxe questionamentos, reflexões e dúvidas que são compartilhadas pelos montadores, a dificuldade de se manter atento ao ver o material bruto e perceber diferenças sutis entre os takes, a tomada de decisões, a compreensão do roteiro e a importância e a função de cada cena dentro do filme, a função do montador, enfim, uma aula de um mestre contador de histórias.

A parte mais interessante foi quando ele exibiu a evolução de versões da montagem de uma cena do filme Entre Irmãs. Foi muito interessante conhecer as referências originais, os caminhos e tentativas até a versão definitiva. Uma oportunidade rara que infelizmente acaba 100% das vezes indo pro lixo. Particularmente, essa sessão me sensibilizou a começar a guardar as montagens alternativas das cenas que monto.

Depois da aula do Vicente, tivemos uma mesa surpreendente sobre o Futuro da Edição. Assunto impossível de resumir, dada a complexidade teórica e tecnológica apresentada. Vou falar apenas daquilo que mais me impressionou. Antes, é bom dizer que quase não fiquei para assistir essa mesa. O assunto VR não me interessava muito como montador, pois me parece que os cortes que se faz nessa coisa não tem a mesma função daquilo que os montadores entendem por corte no cinema. É outra coisa. Então eu tenho um preconceito assumido com aquilo que não parecia me dizer respeito. Além disso, me irrita um pouco essa obsessão com o cinema total, de imersão absoluta, que vem desde o tempo do Ariri Pistola. Mas resolvi ficar e valeu muito a pena porque descobri que estava enganado.

Primeiro tivemos um mergulho teórico na palestra do Professor Fernando Salis, da UFRJ, que foi fundo nas questões epistemológicas desse novo meio e as possibilidades que traz para o documentário e para a performance. Vale a pena conferir a palestra na íntegra no Youtube. Depois tivemos a palestra do vendedor da Adobe, que prefiro me abster de comentar, e então veio a parte que me derrubou da cadeira. A palestra da Luana Bhering e do Nelson Porto sobre o trabalho que eles vem desenvolvendo no Studio KwO. Foi o momento epifania do encontro. Eles mostraram trechos de um documentário feito na selva entre os índios com uma câmera e uma técnica de captação que praticamente nos coloca dentro do ritual. Vemos um índio usando óculos VR e a emoção que toma conta dele ao reviver aqueles momentos sagrados registrados em 360°. Impossível não se emocionar diante daquilo. Arrepiei inteiro. Realmente tem uma nova arte surgindo ali. Eles fizeram uma linha de evolução das outras mídias para demonstrar isso. Demonstraram também algumas experiências de escaneamento que vem sendo desenvolvidas e com aplicações muito interessantes no cinema que conhecemos. Ainda não entendo muito bem como será o papel do montador nessa nova arte, mas me despertou a curiosidade para acompanhar os desdobramentos.

Também me impressionou muito a palestra da Natara Ney sobre o processo de realização do filme Pluft, que utiliza recursos 3D aliados com filmagem embaixo d’água e composições bastante complexas que exigem um olho clínico do montador. Vale muito a pena assistir essas falas no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=nFp3VZRyiFc&t=679s

Rio de Janeiro, 28/10/2017.

*Alfredo Barros é editor e montador de cinema, atua no Rio Grande do Sul. 

edt. é a primeira associação de profissionais de edição audiovisual do Brasil. Formada por editores, montadores, assistentes de edição, atuantes no Rio de Janeiro, e estudantes da área do audiovisual, foi fundada em março de 2012, e atualmente conta com quase 200 associados em seu quadro social.

Agradecemos o empenho do editor e montador Alfredo Barros por compartilhar o seu relato neste boletim. Vida longa a articulação dos trabalhadores e trabalhadoras do audiovisual. O presente texto foi revisado por Vinicius Carvalho, dúvidas e críticas podem ser enviadas para o e-mail: boletim@cinema.wiki.br.

Frederico Neto
Coordenador Geral - cinema.wiki.br Difusor Cultural na Sangue TV | 55(41)99132-5995

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