Novo Edital FCC-FSA avança, mas ainda apresenta contradições

Texto por Frederico Neto e revisão por Vinicius Carvalho

Lançado nesta quarta-feira (26), no Salão da Prefeitura de Curitiba, a presente edição do Edital de Arranjos Regionais do Fundo Setorial do Audiovisual é fruto de uma parceria entre a Fundação Cultural de Curitiba e Agência Nacional de Cinema. Se comparada a atrocidade praticada pela administração anterior, possui chamadas mais civilizadas e uma redação normativa. Entretanto, este edital e as reações da corporação de cinema curitibana ainda compõem um retrato do atraso audiovisual da cidade.

Na cerimônia breve e com pouco comparecimento da corporação, Marcelo Cattani, o Presidente da Fundação Cultural de Curitiba, fez uma fala breve e direta assim como foi o anúncio do lançamento da chamada, feita somente no dia anterior. E neste surto momentâneo, como são comuns na história do cinema brasileiro, vieram as falas de nostalgia cultural por parte do Prefeito Rafael Greca e de Paulo Munhoz, representante da BRAVI. Entre as alusões aos “pinhões audiovisuais, potencialidades da ideologia da economia criativa, o empreendedorismo” e outros desejos desatualizados, a única sensatez veio da Vice-Presidente da AVEC (ABD do Paraná), Jessica Sato, após a entrega do “pijama” de político que a entidade deu ao Prefeito, como uma forma de “vestir a camisa do cinema paranaense”. Desta fala, destaca-se o seguinte: a necessidade de um esforço de formação audiovisual na cidade e a efetivação do fundo municipal de cultura de Curitiba.

As 6 linhas de investimentos do Edital:

  • 7 projetos de produção de Curtas-Metragens de Ficção (até R$ 60 mil cada);
  • 2 projetos de produção de Curtas -Metragens de Animação (até R$ 90 mil cada);
  • 4 projetos de Telefilme de Ficção e Telefilme de Animação (até R$ 375 mil cada);
  • 1 projeto de Telefilme Documentário (até R$ 300 mil);
  • 1 projeto de Distribuição de Filmes (até R$ 100 mil);
  • 2 projetos de Realização de Festivais (até R$ 50 mil cada)

Análise crítica

A inscrição é feita apenas por pessoas jurídicas com um ano de domicílio na cidade ou seja, apenas para produtoras de cinema da região registradas na ANCINE. Uma barreira que deveria ser revista nas duas linhas de produção de curtas, onde pessoas físicas poderiam se inscrever e aprovado o projeto, os contemplados deverão indicar uma produtora para a execução.

Os valores dos curtas também são ínfimos e desatualizados, o que precariza tecnicamente e artisticamente as propostas; e inviabiliza os projetos cuja a captação e finalização sejam em 4K (UHD). No que tange os tais “telefilmes”, uma praga desejosa pela corporação paranaense, o edital deveria rever a determinação da minutagem de 52 minutos, podendo ser a partir de 52 minutos ou mesmo permitir versões expandidas dos produtos finais.

A chamada, também, tem abrangência para os esforços de distribuição, com um valor coerente com as linhas da ANCINE – Agência Nacional de Cinema, e difusão com valores restritos em uma proposta de patrocínio de pouca efetividade. Ainda sobre a linha de apoio aos festivais é importante expandir sua abrangência para mais de uma edição do evento. No eixo Rio-SP, existe uma formulação pelos próprios realizadores de mostras para que os patrocínios contemplem três edições do evento e ações contínuas, bem como a tutoria dos eventos para a captação de recursos ou parcerias com entes internacionais. Em Curitiba, a tão anunciada novidade pode suprir momentaneamente a grande demanda por um calendário de atividades e eventos de cinema mas não garante a sua sustentabilidade.

Dentro da seleção, a chamada ainda limita a aprovação de um projeto por proponente sem especificar como isso será feito, uma dor de cabeça que pode ser evitada com uma breve correção indicando que o próprio proponente escolha o projeto que irá executar no caso de ter duas ou mais propostas contempladas. A forma de pontuação e juízo de mérito, expresso na tabela do edital, limita a possibilidade de novos realizadores serem contemplados, pois o mérito artístico fica diluído entre análises de currículo e outras burocracias. Outro problema se insere na composição da banca de avaliação, onde uma comissão de 5 pessoas ficará a cargo de toda a seleção. E neste escopo viciado não se tem nenhuma determinação para critérios de impessoalidade e isenção ou mesmo a possibilidade de uma banca externa. Isso sem falar que parte da verba destinada a chamada será utilizada para a realização da seleção, uma anomalia da cidade de Curitiba.

Editais não resolvem os problemas do cinema brasileiro

O contexto de fim de ciclo político e histórico tem se expressado na cinematografia brasileira não só na mediocridade dos filmes lançados, mas também na mentalidade patrimonialista da corporação e na rede de indicações que permeiam as bancas de seleção dos editais ou dos festivais. Consolidou-se uma visão tacanha e restrita do que seriam os filmes para o financiamento público, os tais filmes de festivais que fora do apelo da banca dos amigos e amigas não tem se encontrado com a plateia de cinema. O mesmo em relação às comédias ligeiras cariocas que funcionam em um esquema de agronegócio audiovisual monopolista e imediatista. Ou os filmes pseudo-comerciais que tendem a ser uma publicidade mal sucedida em tom pastel.

No contexto da municipalidade, as políticas públicas deveriam se voltar aos munícipes e não às corporações. E o atendimento do poder público se expressa em editais que visam a produção de produtos que tem pouca viabilidade de telas – no caso os telefilmes; ou mesmo que forcem a precarização da atividade – no caso as linhas de curtas e festivais. Sem um esforço de preservação, formação e difusão na cidade qualquer iniciativa de fomento a produção de filmes se torna inócua, pois os filmes acabam não sendo vistos e muito menos são preservados. E sobre isso, a insensibilidade maior não é nem do poder público mas da corporação e seu imediatismo imposto pela ausência de condições em um mercado ocupado pelo produto estrangeiro.

Observação: na próxima semana iremos publicar um PDF com comentários no texto deste edital.

NOTA DA FCC:  http://www.fundacaoculturaldecuritiba.com.br/noticias/inscricoes-para-edital-do-audiovisual-estao-abertas/

VI Olhar de Cinema consolida o festival e apresenta a questões urgentes

Desde 2012, festival acumula exibições relevantes e reflexões atuais sobre o papel do cinema no contexto mundial.

por Vinicius Carvalho*

Protestos de rua, luta por moradia, ocupações, militarização. Movimento negro, feminismo, LGBTs. Demarcação de terras indígenas, migrantes e pessoas refugiadas, direitos trabalhistas. As questões presentes no VI Olhar de Cinema multiplicam-se. Assim como a quantidade de filmes desta edição: 125, exibidos durante os nove dias do evento.

Conforme a própria apresentação deste Olhar, a tarefa é “provocar e convidar seu público à reflexão acerca do papel do cinema como ferramenta de sensibilização e resistência coletiva”. Tão importante quanto os filmes, neste sentido, são os debates com as equipes realizadoras, os Seminários de Cinema, as oficinas gratuitas.

“Fico feliz de ver que a cidade já entendeu que essa é a proposta. Com os diálogos do último ano pra cá, as pessoas têm se programado de fora, vêm em caravanas”, ilustra Aly Muritiba, um dos fundadores do Olhar de Cinema. Importante lembrar o Seminário “Cultura na Era do Golpe”, que aconteceu ano passado. À época, a sede do Iphan estava ocupada, diante da extinção do Ministério da Cultura. Em meio a programação do Olhar, o encontro reuniu a equipe e o público do festival, o ex-ministro da cultura Juca Ferreira e representantes da ocupação, que hoje compõem o movimento Cultura Resiste.

De lá pra cá, o país passa por mudanças sociais e políticas, e o cinema trata disso. “O debate que os filmes têm trazido, e os encontros, têm uma relação muito íntima entre ética e estética”, explica Aly.

Embora passemos por problemas específicos no Brasil pós-golpe, os filmes que de alguma forma dão conta de questões políticas dialogam por todo o mundo. “Não é uma questão do Brasil, ondas reacionárias têm se manifestado de maneira horrorosa”, opina Aaron Cutler, da equipe de programação. “O cinema, que não é controlado por monstros, apresenta respostas a isso”, conclui.

Teste do pescoço – a questão do público

Domingo, 11 de junho, quinto dia do Festival Olhar de Cinema. E também um dia considerado nobre para a agenda de entretenimento, sobretudo quando faz sol na cidade. Aproveitamos a oportunidade para compreender como um evento que apresenta filmes autorais ou mesmo experimentais em sua programação consegue atrair o púbico.

Nas cinco salas do Cineplex, do shopping Novo Batel, três exibem os seguintes filmes: Z, a cidade perdida, Rei Arthur, a lenda da espada, Mulher Maravilha, Os Smurfs e a Vila Perdida e Animal Político. Nas outras duas, os filmes do Olhar de Cinema variam: o indiano Newton; o radical Alipato; o premiado El Mar, La Mar; clássicos e exibições especiais.

O que chamou atenção foi o número de espectadores em cada sala: enquanto a média de público dos filmes variava de oito a quinze pessoas, as sessões do festival contavam com mais de cem pessoas, em média. Ou seja, alguns filmes do Olhar fizeram dez vezes mais público do que o filme da sala ao lado.

Para Aaron Cutler, a pluralidade que o Olhar apresenta é uma das chaves para compreendê-lo: “A variedade estética, de culturas, países, épocas, estilos de vida… enfim, essa variedade é nossa tentativa de mostrar a variedade de questões de nosso mundo, sem comprometer a qualidade dos filmes”. Apenas para os longas-metragens das mostras, foram assistidos cerca de 700 obras, para a seleção final, de 40. Isso sem contar os casos em que filmes são barrados do festival por questões contratuais. “Por mais que a gente entrasse em contato com realizadores, são as distribuidoras que tomam essas decisões”, aponta Aaron.

Danielly Zuza, estudante de publicidade, foi uma das ganhadoras do sorteio que dá direito a ingressos diários. Ela também aposta nessa variedade como característica do Olhar de Cinema “O festival está maior, com filmes diferenciados, com tanta coisa diferente”. No entanto, poucas pessoas próximas a ela acompanharam o festival todo. “Não é comum, mesmo sendo da área, as pessoas pararem do começo ao fim, participarem dos debates. Mas achei que estaria mais vazio”, afirma.

Equipe de apoio

Todo ano, o Olhar conta com uma equipe de pessoas voluntárias. Atuando na projeção, nas salas, na recepção, na mediação com cineastas e imprensa, a equipe faz com que o evento ocorra da melhor maneira possível.

Com o avanço das edições e o próprio crescimento do festival, foi criada neste ano uma coordenação para orientar esta equipe. “A gente batia muito a cabeça, com tanta gente interessada, mas sem uma boa orientação. Nesta edição, com a coordenação, é a primeira que consigo ver um filme inteiro!”, brinca Aly Muritiba. “Demos um salto de qualidade incrível”.

A procura pela experiência é grande: para as 38 pessoas selecionadas, foram mais de 450 inscrições. A equipe é variada, formada por estudantes de cinema, pessoas interessadas e demais atividades culturais.

“Façam filmes!”

A Família, de Gustavo Rondón Córdova, não é uma escolha do acaso para abrir o VI Olhar. Assim como o primeiro longa de Juliana Antunes, Baronesa, que encerra o festival mas soa como um convite para prosseguirmos. “Eu ainda não estou recuperada desse golpe ridículo”, explica a diretora. “Mas estes filmes ainda não estão prontos. Baronesa é pré-golpe, é pré-crise brasileira, embora tudo já esteja ali, desenhado”.

Da mesma maneira, outro destaque foi a exibição de Meu Corpo é Político, de Alice Riff. Com sessões lotadas, o filme contou com grande participação do público, inclusive nos debates. Sobre a questão de pessoas trans, sobretudo que vivem na periferia, a equipe do longa vê uma mudança positiva: “Acompanhamos pessoas públicas, e cada vez se fala mais disso, esses espaços [de fala] estão surgindo, e crescendo”, afirma Alice.

E quando as pessoas afirmam que passaram o filme todo esperando uma cena de violência ou preconceito, a equipe responde: “Deixamos isso pro Datena. Nosso filme é político, procuramos as narrativas que nos interessam”. Talvez pelo fato de escolher o que filmar e tomar decisões com as personagens que protagonizam o longa. De qualquer forma, o filme é um exemplo de quando o cinema consegue ser um contraponto ao sensacionalismo ou enfoque equivocado da mídia convencional.

Apesar das inúmeras dificuldades de realizar um filme de forma independente, Juliana comprova, com Baronesa, que isso é possível. “Nos exercícios de faculdade, os caras não topavam, e depois não emprestavam equipamentos. Quem topou foram amigas próximas, uma ex-namorada, tudo sem grana, orçamento curtíssimo, a pé!”, enumera Juliana. Na hora da filmagem, não é diferente. Segundo Juliana, para filmar Baronesa, a equipe dependia sempre de uma “autorização masculina”, seja do pai, do marido, do irmão de alguma das personagens. “Como é difícil filmar mulher na periferia!”, destaca. “Era o exponencial da desgraça, e era muito importante pra mim captar isso, esse nicho de violência desesperançoso”, afirma.

O filme é fruto de quatro anos de pesquisa, para onze diárias de produção, e mais um ano e meio de montagem. “Baronesa quebra essa coisa de currículo, de carreira… É um filme feito a partir do desejo”, afirma Juliana. Impossível separar sua obra e seu discurso da questão de gênero na produção cinematográfica. “Essa discussão é constante entre nós realizadoras, por que tem tanto disso?”, questiona. “O maior problema é a paridade de gênero. Além da realização, a maioria nos júris e seleção de festivais são homens. Sobretudo nas bancas de editais, a maioria é homem. A gente fica com o que sobra. E então eu me pergunto, como mudar isso? Façam filmes!”, incentiva Juliana.

Vinicius Carvalho é formado em comunicação social e em cinema, milita no campo da cultura.